
Contra a Lógica da Tecnologia
por Green Anarchy
O ritmo a que a sociedade se está a tornar completamente tecnificada não é nada menos que estonteante. Vivemos actualmente numa tecnocultura na qual a existência social é cada vez mais aplanada, isolada, mediada, homogeneizada e irreal. Engenharia genética, nanotecnologia, vigilância futurista e a clonagem trazem uma invasiva colonização da vida como nunca antes foi visto, enquanto que a experiência directa e o próprio significado se tornam em baixas duma tecnologização imperativa. A Sociedade Industrial e o Seu Futuro de Kaczynski afirma, em resumo, que quanto mais isto avançar menos liberdade e realização terá o indivíduo. A política é cada vez mais uma questão de decisões técnicas, cujos parâmetros são criados por sistemas abrangentemente tecnológicos.
A tão discutida crise geral – ambiental, social, pessoal – é na sua base o resultado de uma tecnologia arremetida. Que nunca inverte o seu percurso, que nunca recua, que devora cada vez mais vida, a textura da vida, a noção de encanto, possibilidade e realidade da vida. Poucos conseguem vislumbrar a tecnologia como a solução em vez do problema, mas ainda menos que esses levantam activamente dúvidas acerca da sua chacina.
Entre aqueles que não conseguem erguer dúvidas encontram-se muitos anarquistas que, tristemente, evitam enfrentar uma rígida realidade porque não estão preparados para encarar as consequências. As consequências de compreender que o nosso mundo está a ser destruído por algo que ultrapassa a noção de ser “anti-capitalista”. Como se tal fosse possível sem lidar com a génese do capitalismo. Instituições fundamentais, como a divisão laboral e a domesticação, originam uma sociedade dividida e à própria civilização. Sem lidarmos com estas causas primárias a análise e a acção mantêm-se encurraladas em formulações secundárias.
Esta confrontação não é fácil, mas é muito provável que seja essencial. Sem enfrentar a civilização tecnológica, que é nesta altura a norma global, não existirá qualquer visão libertadora, não há como escapar dos familiares horrores diários. As coisas continuarão a piorar, a piorar muito.
Para nós, o meio “pós-esquerda” precisa de examinar o que este mundo tecnológico é, como funciona e como acabar com ele.
A tecnologia é, nas palavras de Paul Piccone, a “tropa de choque da modernidade.” A modernidade, ou a sociedade de massas, tornou-se insuportável, isenta de promessa. A produção em massa e a cultura em massa são criações da lógica da tecnologia, cujos efeitos se tornam mais evidentes a cada dia que passa.
in Green Anarchy #22
Tradução de Flávio Gonçalves