Choca-nos profundamente o modo como ainda hoje, em pleno século XXI e após tantas décadas passadas após a derrota do fascismo, o antifascismo sirva para tudo e seja levado a sério, por alguns é considerado mesmo como sendo uma ideologia embora nunca tenhamos ouvido falar de ideologias anti, uma ideologia deve, antes de mais, defender algo e propor uma mudança em vez de manifestar afirmando o que não é.

Como definimos uma cabeça? Afirmando que é antipés? Que não é as mãos, que não é os braços, que não é o tronco… Como se define algo mencionando apenas o que esse algo não é?

O que é o almoço hoje? O almoço hoje não são lentilhas, não é bife, não é feijão, não são sardinhas… ficou esclarecido sobre o que é a ementa do almoço? Óbvio que não, não lhe dizem o que são, dizem apenas o que não são, isso meus amigos não é uma ideologia.

Isto sem referirmos o carácter autoritário e intolerante do antifascismo moderna, eu diria que é quase uma cópia daquilo que afirmam ter sido o fascismo, vejam lá que o antifascismo possui mesmo os seus próprios skinheads cuja vestimenta e música em nada, ou muito pouco – em meros pormenores – difere da dos neofascistas modernos, diríamos mesmo que apenas alteram o objecto do ódio.

Que futuro poderá ter um agrupamento cuja única razão de ser é odiar o próximo? Enquanto um lado odeia os imigrantes e a esquerda, o outro odeia os nacionais e a direita (estão bem uns para os outros, a nós nem essas dicotomias nem esses ódios afectam).

E o que é fascismo, concretamente? O fascismo histórico foi um movimento que nasceu do delfim marxista italiano Benito Mussolini, que farto da ineficácia revolucionária dos seus camaradas comunistas decidiu criar algo próprio (Mussolini foi mesmo director dos jornais “Avante!” e “Luta de Classes”, embora a direita neofascista se arrepie de pensar nas origens do seu líder) que contou com grande apoio tanto de comunistas como de anarquistas.

Mencionar as raízes do fascismo actualmente origina o pânico e o horror tanto entre a direita neofascista como entre a esquerda antifascista, dois filhos bastardos dum mesmo pai.

Mas o que é o fascismo hoje? O fascismo e os fascistas hoje são toda a gente, desde o José Sócrates, engenheiro e primeiro-ministro, ao Paulo Portas, passando pelo Bush nos EUA ou pelo Putin, ex KGB, na Rússia. Fascista é o Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, aos olhos dos renovadores comunistas cuja voz é apagada e afastada.

Fascista és tu e sou eu! Actualmente todos somos o fascista de alguém!

E os dogmas? Tanto os neos como os antifas têm os seus respectivos dogmas, como qualquer credo reaccionário fecham as suas fileiras a quem não adira aos seus dogmas. Como qualquer credo reaccionário tanto os neos como os antifas recorrem e promovem a violência para calarem os seus opositores. Como qualquer credo reaccionário neos e antifas falam só para dentro, discutem apenas uns com os outros, não desenvolvem, não crescem intelectualmente.

O antifascismo é tão reaccionário como dizem sê-lo o fascismo, copia de tal modo os seus defeitos que podemos mesmo afirmar que um é o reflexo do outro, espelham-se um ao outro, mudam um símbolo aqui ou ali e agem, ambos, como idiotas úteis ao sistema, que os espicaça um contra o outro dissimulando assim a energia revolucionária juvenil de modo a que não incomode o sistema.

Que ameaça fascista vislumbram hoje os antifascistas? Le Pen? Nem deputados tem! Jörg Haider? Meus amigos, ele foi governo, viram deportações em massa? A Áustria fechou as fronteiras? Auschwitz reabriu? Não, não e novamente não! Nada aconteceu, os neofascistas nem quando estão no governo são uma ameaça, que raios combatem os antifascistas?

Nota: a redacção do “Resistir” é da opinião de que o Fascismo original foi uma corrente revolucionária e anárquica do Socialismo italiano e não o confunde com a noção de fascismo moderna: ódio para com o próximo e sinónimo de autoritarismo. Ódio para com o próximo e policiamento intelectual e político são as noções modernas de fascismo, assim sendo cremos que podemos incluir o antifascismo como exemplo perfeito de credo fascista.*

Flávio Gonçalves