A primeira obra que li, assinada por Robert A. Heinlein, foi “Estranho Numa Terra Estranha”. Foi-me emprestada pelo meu irmão mais novo e era uma edição de bolso com uma capa esteticamente muito atraente. Ainda mantenho esta edição na biblioteca da casa da minha família, nos Açores. “Estranho Numa Terra Estranha” foi uma obra encarada como sendo extremamente progressista no tempo de Heinlein, falava de libertação sexual quando esse tipo de coisa ainda era considerada contracultura e originou que o próprio Heinlein obtivesse um estatuto de uma espécie de guru. Apesar do livro ter sido originalmente editado em 1961 tratava-se de uma edição censurada e só em 1991 é que os leitores puderam ler a obra na íntegra. Tem sido alegado que foi esta obra que inspirou a criação do culto de Manson, apesar de Charles Manson já ter vindo a público rebater esta afirmação, negando mesmo alguma vez ter lido a obra em questão e que não podia ser responsabilizado pelo que os seus seguidores liam.
Nascido a 7 de Julho de 1907, Heinlein iniciou o seu rumo político como um esquerdista normal mas, algures no ser percurso, algo mudou e quando faleceu era visto como uma espécie de anarquista de direita. Não sei dizer-vos o que aconteceu, mas a obra “Soldados do Universo” bem me pareceu um tanto ou quanto anticomunista e foi publicada antes de “Estranho Numa Terra Estranha”. Mas uma vez que o anticomunismo não pode ser considerado como sendo um monopólio da Direita, os anarquistas convencionais também se assumem como anticomunistas como parte da sua agenda anti-autoritária (digam o que disserem, ditadura do proletariado não deixa de ser ditadura) e esta é uma realidade que nasce logo no seio da Primeira Internacional, quando Mikhail Bakunine e Karl Marx se digladiam. Portanto, muitos esquerdistas (eu diria mesmo que a maioria) são anticomunistas e isso não constitui propriamente uma inovação.
estranho.jpgSe não se importam vou contornar a polémica acerca de se a obra “Soldados do Universo” era uma ode ao militarismo ou uma espécie de patriotismo fascista e colocá-la, ao invés disso, ao lado de obras como “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”, “O Tacão de Ferro” e “Admirável Mundo Novo”. Retrata um futuro sob uma forma de governo autoritário, facto constatado! Permitam-me citar algo que encontrei na Wikipedia: “A temática geral do livro é a de que a responsabilidade social requer o sacrifício individual. A Federação Terrestre de Heinlein possui uma democracia limitada com aspectos de meritocracia baseada na disposição ao sacrifício pelo bem-estar comum. O sufrágio é limitado apenas àqueles que servem a sua sociedade por um período de dois anos, como voluntários, no Serviço Federal (não existe recenseamento)”. Bem, isso não me soa nada mal e faz parte mesmo do meu ponto de no que diz respeito ao socialismo. O interesse comum do povo deve ser mais importante que os interesses dos indivíduos e uma medida deste género podia melhorar a nossa sociedade, apesar de pessoalmente acreditar que precisamos duma mudança mais significativa, ou radical.
Voltando a Heinlein, como aparentemente era prática entre os escritores de ficção cientifica militarista, o mesmo tinha sido soldado e cumpriu o ser serviço na Marinha dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, mas devido a problemas de saúde não teve oportunidade de combater. Permaneceu nos EUA durante a guerra (a efectuar trabalho de pesquisa). Já durante a Guerra Fria fundou, com a sua esposa, a Liga Patrick Henry quando a Comissão Nacional por uma Política Nuclear Saudável tentou, unilateralmente, acabar com todos os testes de armas nucleares nos EUA, apesar do facto de a União Soviética manter o seu programa nuclear em andamento… isto aparenta ser o acto digno de um patriota. Curiosamente a obra “Soldados do Universo” faz parte, ainda hoje, da lista de leituras recomendadas de quatro das cinco academias militares existentes nos Estados Unidos (que cobrem o Exército, a Marinha e o Corpo de Fuzileiros).
Então, que era ele? Foi etiquetado de fascista, nazi, racista e até de homofóbico enquanto promovia a libertação sexual. E se em “Soldados do Universo” o vemos a pintar como benevolente um governo intrusivo e forte, por outro lado em “The Moon is a Harsh Mistress” (desconheço se foi publicado em Portugal e, se sim, com que título) o autor ataca com mestria esse mesmo tipo de governo e exalta como bastiões das liberdades individuais as comunidades autónomas (tal como qualquer bom anarquista) e o podemos acrescentar ao seu ensaio político “Take Back Your Government!: A Practical Handbook for the Private Citizen Who Wants Democracy to Work”? (desconheço também se foi traduzido e publicado em Portugal, o título traduzido livremente: “Retomemos o Nosso Governo! Manual Prático para Cidadãos Privados que Queiram que a Democracia Funcione”)
Todos os seus escritos mais antigos e até mesmo o seu activismo político socialista retratam-no como sendo um anarquista, mas devido ás peculiaridades da Guerra Fria abraçou também o patriotismo. O seu país encontrava-se em guerra com uma federação de países e pareceu-lhe natural erguer-se e defender os seus compatriotas, não esqueçamos que as suas posições no que diz respeito à homossexualidade, à emancipação sexual, a sua crítica pela religião organizada e a sua posição referente á manutenção do que era do foro privado (foi nudista toda a vida) dificilmente podem ser consideradas de direita. A sua escrita era revolucionária, as suas posições eram as de um anarquista tradicional, mas quando se tornou necessário também foi um patriota exemplar na crítica do comunismo soviético, que não deve ser confundido com o socialismo.
Os seus livros mantêm-se tão excitantes hoje em dia como o foram há quase meio século e destas obras podemos retirar lições importantes, de todas elas, além de um bom divertimento. Afinal, ele sempre ganhou quatro prémios Hugo, portanto esperemos que este escritor e pensador revolucionário não seja esquecido tão depressa.
7 de Julho de 2007
Flávio Gonçalves