Lá em cima ofereceram-nos outros lugares, «melhor acondicionados», disseram, «mais cómodos». Como se a ética e a política fossem questões de comodidade, e como se para os zapatistas o principal fosse o lugar e não a audição que, generosa, nos dão agora.
E escrevo isto em vez de dizê-lo, admitindo que veio alguém a esta mesa-redonda que, para estar na moda, ocupa já o primeiro lugar dos esclarecimentos. Já só faltava que a própria mesa se explicasse.
Ética e Política. Fomos nós que propusemos este tema. No vaivém mediático que oferece pílulas soporíferas a quem não quer defender, desvendar e averiguar a realidade, há várias coisas que estão a ficar esquecidas. O Poder parafraseia Pablo Neruda e canta-nos com estridência, «Gosto quando te calas porque ficas pendente»... do que digo, e estás como distante... esperando a próxima venda da temporada, ou seja, as próximas eleições».
A nossa ideia foi, pois, a de nomear o ausente, o que agora aparece não só como excluindo-se mutuamente, a ética e a política neste caso, mas também como lógico, razoável, compreensível, justificável, plausível... e todos os «íveis» que lhes ocorram.
Nomear o ausente é um dos modos de avivar a memória, que igualmente se projecta para o futuro. E escolhemos precisamente o tema da ética, não só para assinalar o seu desterro e ausência da política «de cima», além da sua circunscrição ao espaço da universidade, mas também para assinalar e apontar algumas pistas para que, no seguimento do que estamos a dizer, a ética e a política se abracem por fim da única forma que o podem fazer: sendo outras.
Quando se trata só de palavras, parece não haver nenhum problema em falar de ética e de política. Pode-se escrever livros, dar aulas, fazer investigações e, às vezes, até participar em mesas-redondas. Claro, sempre e quando não sejam no Che Guevara de Filosofia e Letras da UNAM.
Mas fazê-las presidir à própria prática política? Deixemo-nos disso! Isso é de ingénuos, puristas ou de idealistas cândidos, afectados pelo calendário da juventude. Lá virá a realidade cantar: «Juventude, tesouro divino, vais-te embora para não voltar, quando quero um «tacho» (ou uma bolsa) choro, e às vezes choro sem querer».
Mas, se vamos nomear o ausente, então perguntemos o que lhe aconteceu:
quando e como foi que a ética e a política tomaram esses caminhos? A ética, o caminho asséptico e medíocre da universidade? A política, o caminho do cinismo e da desvergonha «realistas»?
Quando foi que a intelectualidade progressista renunciou à análise crítica e se converteu em triste carpideira das derrotas e fracassos da classe política, há vários anos morta?
Quando se operou essa mágica alquimia que fez dos intelectuais progressistas os justificadores, e não poucas vezes os aduladores, da prática de uma «esquerda» tão entre comas e tão à direita, que precisam de fazer malabarismos para tirá-la da sua verdadeira posição no espectro político?
Quando foi que a ética deixou de ser uma referência e foi substituída por estudos, sondagens, aglomerações de massas ou de votos, para se chegar ao ponto de comparar a manifestação contra a fraude eleitoral de 2006 com o recente concerto de Shakira?
«É preciso estar onde estão as massas», disseram então. Estiveram pois seguramente ali, quando Shakira demonstrava o que eu, humildemente e com as minhas modestas habilidades, lhe ensinei. Sim, isso foi já há muito tempo. Agora, já mexo as ancas com tanta dificuldade que me acomodo cada vez mais ao assento, nas longas viagens do nosso percurso pelo Outro México, o de «baixo», o da esquerda sem aspas, sem orçamentos e sem enviados especiais destacados.
Mas já me estou a desviar do assunto, quando o melhor seria chegar ao ponto. Bom, chega de divagações. Estamos a falar de coisas sérias e devemos mostrar-nos sérios, formais, aborrecidos.
Voltemos, pois, às perguntas:
Quando foi que a corte parasita da classe política mexicana, e os analistas e comentadores que a acompanham, se converteu numa desordenada equipa de palhaços sem público e sem graça?
Quando foi que as notícias sobre as vicissitudes da classe política se deslocaram (do fim do ranking, claro!) para a cómica coluna dos média electrónicos?
Quando foi que o reiterado processo de suplantação de identidade começou a ser aclamado, se era (ou é) como nesta universidade, a Nacional Autónoma do México, uma imposição em que cada um procura não ficar de fora, e oferece em troca o alinhamento a uma «esquerda» tão bem comportada que não só «brilha» nas fotos como contrasta com esta geração de jovens (quer dizer, nós, homens e mulheres, o grupo, os brancos, os bem arranjados, os outros, os sujos, os feios, os maus, e, bem, já que estamos na igualdade de género, também as sujas, as feias e as más); nós, mulheres e homens, as girafas e os «girafos» que merecemos não a análise crítica mas o desprezo, o escárnio, e a perseguição dos que se auto-denominam «a classe pensadora»?
Olhe, jovem, a diferença fundamental entre a Torre da Reitoria e o auditório Che Guevara é o orçamento. Que me interessa a mim o que se faz aqui em baixo se não posso anunciá-lo numa gazeta universitária e cobrá-lo em facturas «tudo incluído»? Por favor, jovem, seja realista: a comunidade universitária está lá em cima. Lá fora estão os clientes, sim, os clientes na hora dos laboratórios, das bolsas, dos cursos, das inscrições, dos empregos e... as trocas nas direcções e na reitoria. A ética? Mmh... soa -me. Em quanto está cotado?
E o que se fez da «esquerda» (já pus tantas comas na «esquerda» que receio que se acabem no teclado»), que se virou para o aspecto eleitoral (o que é compreensível e válido) e aos poucos foi deixando os princípios, quer dizer, a identidade, como se fossem um monte de escombros e mesmo um empecilho?
Numa estranha reacção, os fracassos evidentes não levaram à reposição dos princípios de uma prática política que se reclamava, e reclama, de luta pela justiça, essa eterna ausente no México de Baixo (e do mundo, diga-se de passagem).
Não, se perderam ou os roubaram (a diferença está na quantidade de publicidade paga por cada grupo) é porque lhes faltou «estratégia de comunicação», que é como agora se diz da cedência dos princípios, da submissão ao Rei Midas do poder, que transforma em merda tudo o que toca.
E falhou a «política de alianças», como agora se chama ao servil namoro a uma classe dominante, que é naturalmente coquete mas sempre fiel aos seus interesses.
E falharam os acordos e a «unidade» a qualquer preço, a qualquer custo, por qualquer lugar. «Unamo-nos», disseram, mas na realidade pensavam: «submetam-se», «esqueçam», «rendam-se».
E quem disse e diz «Não!» é «sectário», «infantil», «joguete da direita». Arrancaram pois das suas paredes os retratos dos zapatistas, colocando no seu lugar os dos caluniadores, perseguidores e assassinos de indígenas zapatistas: Gustavo Iruegas, Arturo Nuñez, Ricardo Monreal, e o auto-denominado reitor da UNAM, o «señorito» Juan Ramón De La Fuente, entre outros.
E prenderam os seus seguidores... enquanto os do outro grupo prendiam os reflectores mediáticos.
No México, lá em cima, podem dizer sem corar sequer que está certo bater e encarcerar as pessoas de baixo, gente que se mata todos os dias para ganhar honestamente alguma coisa para dar à sua família; que as despejem das suas casas, do seu pequeno comércio, dos seus bens, inclusive do seu meio de vida; que se aplauda (ou se cale, que é uma forma pior de aplaudir), como numa guerra de conquista, que se despoje – lá em cima, dizem «se exproprie» – territórios inteiros de uma cidade, para entregá-los logo a seguir aos grandes investidores que, basta um pouco de memória, são os heróis e aliados de hoje... e os traidores de amanhã.
O caso de Carlos Slim, o aliado de anteontem, o traidor de ontem, o amigo de hoje, o aliado de amanhã, o traidor de depois de amanhã, é o botão de luxo da exposição oculta do Poder. E estou a falar da Cidade do México, do bairro de Tepito e da sua gente, de Iztapalapa e da sua gente, de Santa Maria La Rivera e da sua gente.
Sem qualquer processo judicial, se despoja e se ataca. E os meios de comunicação social suplantam as ordens de ataque e convertem-se em juízes e verdugos: «dedicavam-se frequentemente ao narcotráfico», afirmam. E nenhum dos que faz do pensamento o seu trabalho, diz seja o que for. Nem sequer perguntam o elementar, ou seja, «se eram narcotraficantes, por que viviam onde viviam?» Em vez de perguntas, evidências: «Por alguma coisa será», «merecem-no», «alguma coisa terão feito», e então voltam-se para outro lado, para um concerto no zócalo, para umas fotos numa praça cheia, onde as pessoas são apenas peças de uma ordenada exposição de peles nuas, ou seja, para tudo o que não exija compromisso, questionamento, ética.
Parece que, com o embate neoliberal, não caíram só os princípios políticos no México e as referências ao político como «homem de Estado»: entre os restos do naufrágio de toda a classe política mexicana jazem também a dignidade, a decência... e a vergonha.
Dir-se-ia que as margens da honestidade e da vergonha alargaram bastante, até um ponto que parece não ter limite. Como se um estranho raciocínio rezasse: «segundo as pesquisas eleitorais, os meus inimigos podem ser meus amigos», Elba Esther Gordillo deixará de ser uma bruxa quando se «alie» à Frente Amplio Opositor, passando então a ser uma grande lutadora social e um exemplo para a docência... a quem explorou, perseguiu, atraiçoou e assassinou. Agora, os políticos são lixo reciclável: e os novos «heróis» e «progressistas» são Manuel Barttlett, Javier Corral e Sauri Riancho. O Diálogo Nacional convidá-los-á, com certeza, para a sua próxima reunião, embora não se saiba as «origens operárias e camponesas» deste trio de desavergonhados, nem que malabarismos os seus dirigentes têm de fazer para o justificar.
Sei que mais do que um citará Lenin para justificar o que se faz e desfaz. Afinal de contas, Lenin é útil para tudo... até para o contradizer.
Mas já estamos um pouco longe da Rússia czarista, do Palácio de Inverno e da Duma.
Lá em cima, o século XXI arrancou no México somando à falta de imaginação, inteligência e coragem, a falta de vergonha.
Se com Miguel De La Madrid se repetiu o ciclo de um presidente medíocre, seguido de um presidente cobarde (Carlos Salinas de Gortari) e imediatamente a seguir de um presidente imbecil (Ernesto Zedillo Ponce de León), com Fox y Calderón parece que o disco rígido da cibernética política bloqueou porque não aparecem nem os medíocres nem os cobardes, e os imbecis reinam, ou julgam fazê-lo, ou fingem, ou nem sequer lhes importa fingir.
Felipe Calderón Hinojosa, pequeno não apenas de estatura, perde-se nas fotografias onde abundam os verdes azeitona e os cinzentos. «Estamos a ganhar!», diz, mas todos sabemos quem está incluído nesse plural e quem não está.
Cada dia que passa, mais sangue nas ruas e nos campos do México, e ele oferece no estrangeiro o mesmo México fictício que herdou de Fox.
E com descaramento explica aos possíveis compradores: «Os rapazes (referindo-se a soldados e polícias) estão a limpar o sítio. Fazem um pouco de barulho, é certo, mas rapidamente ficará limpo. Sobretudo de mexicanos, que são o principal estorvo. Você verá em breve que onde havia um país haverá um terreno baldio, onde poderá investir no que lhe agradar».
Ah! E a comunicação social: entre Espino y Calderón, quem pomos agora a ser eleito? Quem será agora o menos mau?
Repetimos: lá em cima não há nada a fazer, nem sequer anedotas! Por isso estamos hoje aqui, com vocês. Porque acreditamos, e em nós «acreditar» é sinónimo de «fazer», e «fazer» sinónimo de «lutar», e «lutar» sinónimo de «sonhar», que é possível construir outra forma de fazer política e que o seu alicerce principal é a ética, outra ética.
Antes, procurei explicar que nós, zapatisas, somos guerrilheiros e guerrilheiras. E isto não só quer dizer que assumimos como lutadores, às vezes na defensiva e às vezes na ofensiva. Quer dizer, também, que temos uma ética que pouco ou nada tem a ver com o que se ensina ou pretende ensinar (nas aulas, livros ou mesas-redondas com esclarecimentos incluídos) mas sim com um compromisso.
A nossa posição mereceu o desprezo e a crítica dos neo-apologistas do indefensável, quer dizer, da prática de uma classe política que, à lama e ao sangue que lhes mancham as mãos, juntam agora o cinismo de apresentar a sua rendição como «maturidade», «modernidade» e «realismo».
E, paradoxalmente, lembro agora que nos ofereceram comodidades para esta mesa quadrada (talvez por isso despeitada)! A nós que desde que saímos temos sido, para esse sector intelectual, um sonoro e constante incómodo.
José Martí disse uma vez que o homem verdadeiro não vê de que lado se vive melhor mas de que lado está o dever.
Agora poderia dizer-se que o homem e a mulher de baixo e à esquerda não olham de que lado estão as sondagens mas de que lado está o dever.
E o dever, para nós zapatistas, é a nossa ética, a ética do guerrilheiro.
Já antes falei da sua origem, das fontes em que bebemos para ser o que somos e seremos.
Agora quero lembrar o seguinte:
A ética do guerrilheiro pode resumir-se nos seguintes pontos:
1 – Estar sempre disponível para aprender e fazê-lo. São duas as palavras fundamentais para o guerrilheiro andar: «não sei». Enquanto as «grandes cabeças», como disse uma vez o Comandante Tacho, opinam sobre tudo e pensam saber tudo, o guerreiro espreita o desconhecido com a mesma capacidade de admiração que se tem face a algo novo. Quando trilhámos o caminho que marcámos com a Sexta Declaração, não distribuímos opiniões e receitas. Ouvimos e olhámos para aprender. Não para suplantar ou dirigir mas para respeitar. O respeito pelo outro, a outra, ou como nós dizemos «companheiro», «companheira».
2- Estar ao serviço de uma causa materializada. Não se trata de lutar por quimeras, nem de nos enganarmos sobre o inimigo, a batalha, as derrotas, a vitória. Sabemos que há e haverá dores, algumas sem alívio possível, como a da morte de Alexis Benhumea, nosso companheiro e estudante desta universidade, assassinado pelo governo há um ano. Há outras que requerem um paciente cultivo da raiva, como a de saber presos os nossos camaradas de Atenco: Nacho, Magdalena, Mariana, para mencionar apenas três entre elas e eles.
Mas sabemos também que essas e estas feridas que não cicatrizam têm um rumo, um destino, um final. E que essa grande causa que nos motiva não inibe ou subordina causas de todos os tamanhos, antes nelas se materializa.
3 – Respeitar os antecessores. A memória é o alimento vital do guerrilheiro. A água que bebemos é a nossa história. Não só como zapatistas, não só como indígenas, não só como mexicanos. Onde os outros lêem e repetem derrotas para justificar cedências, nós lemos ensinamentos. Onde os outros vêem personalidades, líderes e heróis, nós vemos povos inteiros cumprindo a missão de mestres à distância, no tempo, geografia e modo. A história de baixo não é senão uma imensa memória colectiva.
4 – Existir para o bem da humanidade, quer dizer, da justiça. Oiçam: não disse «para tomar o poder», nem «para chegar a um cargo público», nem para «passar à história», nem «para de cima solucionar o de baixo». Digo em troca, para nomear e trazer aqui essa outra grande ausente no caminho dos de abaixo: a justiça. Não porque ela esteja em algum lado, escondida, esperando que alguém que se julga iluminado a encontre e venha e no-la ofereça, e os nossos calendários se encham de monumentos, bustos e estátuas, mas sim como algo que se constrói, como se constrói tudo o que nos faz seres humanos, em colectivo.
5 – Para esta batalha que sabemos difícil – e eu acrescentaria interminável –, devemos munirmo-nos de armas e ferramentas que nada têm a ver com o que agora se vê ou ouve em qualquer jornal ou noticiário televisivo. Armas e ferramentas que não são senão as ciências, as técnicas e as artes. Entre elas a da palavra.
Por várias circunstâncias de que agora não vou falar, os zapatistas tendem a ver e olhar mundos para os quais não há ainda palavras nos dicionários.
Mas assim como vemos as coisas longínquas como se estivessem ao virar da esquina, vemos também as coisas próximas e imediatas, com a serenidade da distância e do tempo que criamos com a nossa própria geografia e o nosso próprio calendário.
O mais importante (e o mais esquecido) é que o guerrilheiro deve cultivar a capacidade de ver em frente, imaginar o todo composto e terminado, prever as subidas e descidas do caminho, os contratempos e a sua solução. Deve ser sábio na luta, isto é, definir quais os pontos essenciais de uma situação, onde aplicar os seus esforços e que combates ganhar ou perder
O guerrilheiro deve dar atenção e dedicar-se às coisas pequenas e às grandes, às superficiais e às profundas, e traçar assim uma espécie de mapa tridimensional, onde cada parte adquire um sentido preciso de acordo com o que o todo dita, e o todo só adquire razão e legitimidade em cada uma das suas partes.
Assim, o guerrilheiro deve procurar o ritmo, ou seja, o acompanhamento entre as partes do todo. E não a velocidade, que acaba por deixar para trás o importante para atender ao urgente.
Na nossa ética, trata-se então de não pensar indignamente para não agir desonestamente. Aprender sempre, preparar-se sempre, conhecer todos os caminhos possíveis, os seus passos, as suas velocidades, os seus ritmos. Não para percorrer todos mas para saber de todos, andar com todos e chegar com todos.
Não é o hoje, o imediato, o efémero que vemos. O nosso olhar vai mais longe. Até ali, onde se vê um homem ou uma mulher qualquer, acordar com a nova e terna angústia de saber que têm de decidir sobre o seu destino, que caminham com a incerteza que dá a responsabilidade de encher de conteúdo a palavra «liberdade». Até ali, até ao tempo e ao lugar onde alguém dá alguma coisa a alguém. E é tão longe que não se consegue distinguir se é uma flor vermelha ou uma estrela ou um sol o que se estende de uma mão para outra.
A nossa ética tem esse destino.
Não só por isso, mas também por isso, é que sabemos que vamos ganhar.
Muito obrigado.
Subcomandante Marcos
