Vou aproveitar este espaço para dar a conhecer alguns aspectos menos conhecidos do anarquismo, que muita gente insiste em relacionar à extrema-esquerda – tanto em Portugal como no estrangeiro – apesar do mesmo, inclusivamente na revista “Utopia”, anuário anarquista português, ser retractado como estando além da esquerda e da direita e, assim sendo, trata-se de uma muito legítima ideologia de Terceira Via. Para o catalogar assim já bastaria a sua base anti-autoritária (antifascista e anticomunista, portanto), anticapitalista e antiimperialista, campos comuns de toda e qualquer ideologia terceirista.

Hoje daremos a conhecer uma revista e um partido anarquistas espanhóis que escapam, em muito, à típica catalogação do anarquismo como sendo uma ramificação trotskista, já que em Portugal os políticos de direita e até os comunistas tentam relacionar sempre os anarquistas com o Bloco de Esquerda. A revista dá pelo nome de “Autogestión” e o partido é o SAIn (Solidaridad y Autogestión Internacionalista). O que os torna tão diferentes? Além de serem anarquistas de pleno direito, são uma vertente cristã dentro do anarquismo, ou seja, são anarquistas que não alinham no politicamente correcto do homossexualismo político nem da promoção do aborto: são antiaborto e anti-“direitos” (leia-se libertinagem) dos homossexuais.

Exactamente, leram bem: anarquistas que consideram o direito à vida como sendo superior ao direito de “escolha”. Anarquistas que defendem que a homossexualidade é uma opção, que pode ser revertida, e que não alinham em marchas nem em arraiais gay (que em Portugal são pagos por entidades estatais). Curiosamente ainda, anarquistas que consideram o aspecto espiritual como parte integrante da liberdade e da existência do ser humano, que aliam a solidariedade anarquista à solidariedade cristã.

Resumindo: anarquistas com valores morais! E não são os únicos, uma vez que a CGT espanhola (anarco-sindicalista) de quando em vez também exalta o valor da família, e recentemente lançou inclusivamente uma campanha contra a discriminação das mães que aleitam tradicionalmente os seus filhos recém nascidos, recorrendo aos seus seios para os alimentar tradicionalmente.

Aconselhamos vivamente uma visita ao portal genérico animado por estes anarquistas munidos de valores numa era que os perdeu: www.solidaridad.net merece uma visita atempada a todas as suas secções, campanhas e até links providenciados.

Já antes mencionei correntes anarquistas menos convencionais que não correspondem à imagem que o sistema nos transmite diariamente, entre elas o eco-anarquismo, o anarquismo pós esquerda e o Nacional-Anarquismo. Todas elas, tal como esta vertente anarquista cristã, constituem ramos válidos do anarquismo que dificilmente podem ser catalogados como trotskistas.

Num país em que houvesse uma maior troca de informações seria desnecessário escrever um artigo deste género, mas sendo Portugal um país em que ainda se vê tudo a preto e branco – para pouco ou para nada serviu o 25 de Abril neste campo – é importante realçar que o anarquismo é uma ideologia que vale por si mesma e que é um erro relacionar o mesmo exclusivamente com o trotskismo e o comunismo, que ainda hoje o perseguem (tentem ir à festa do Avante! Afirmando-se como anarquistas para verem que tratamento vos relegam os democráticos comunistas estalinistas). Aliás, a oposição do anarquismo ao totalitarismo, ou fascismo, comunista data logo da Primeira Internacional, não é nada novo.

O anarquismo não só vale por si mesmo mas também, devido à sua natureza, é extremamente plural, tem praticamente uma infinidade de vertentes e é puro simplismo português colocar tudo no mesmo saco, deixemos esses simplismos para a extrema-direita caduca e ultrapassada, que não sabe nem nunca aprendeu a fazer melhor, e para os seus aliados neo-nacionalistas (identitários, sionistas e derivados).

Ser Revolucionário e de Esquerdas não significa não ter valores morais e éticos, há que o realçar. Ser apologista da acção directa não é sinónimo de terrorista, importa relembrar. Ser nacionalistas não nos obriga a ser de direita, e muito menos de extrema-direita, ora vejamos os exemplos da Galiza, do País Basco, da Venezuela e da Irlanda. O nacionalismo militante é de esquerda!

Flávio Gonçalves