A acção directa – ou seja, qualquer tipo de acção que ultrapasse os canais políticos estabelecidos para concretizar directamente alguns objectivos – tem uma longa e rica história. Apesar disto, existem muitos mal entendidos acerca da mesma, em parte devido ao modo como tem sido apresentada pela comunicação social.

1. A acção directa é terrorismo
O terrorismo é organizado com o intuito de intimidar e de paralisar as pessoas. A acção directa, por outro lado, tem por intenção inspirar e motivar as pessoas manifestando o poder que elas próprias têm para a concretização dos seus objectivos. Enquanto que o terrorismo é do domínio de uma classe especializada que tenta obter o poder apenas para si, a acção directa manifesta as possibilidades que podem ser utilizadas por terceiros, dando às pessoas o poder de controlarem as suas próprias vidas. Na pior das hipóteses uma determinada acção directa pode obstruir as actividades duma empresa ou duma instituição que os activistas considerem que esteja a cometer uma injustiça, mas trata-se simplesmente de uma forma de desobediência civil, não se trata de terrorismo.

2. A acção directa é violenta
Afirmar que é violento destruir-se a maquinaria de um matadouro ou partir as janelas da sede de um partido que promove a guerra é dar prioridade à propriedade e deixar em segundo plano a vida humana e animal. Esta objecção valida subtilmente a violência contraseres vivos ao focar toda a atenção no direito à propriedade, afastando-a de questões mais fundamentais.

3. A acção directa não é uma expressão política, é uma actividade criminosa
Infelizmente, a legalidade ou ilegalidade de uma acção é uma consideração muito pobre, o que importa é se é justa ou não. Ser contra uma acção apenas com o argumento de que é ilegal é lançar para segundo plano a questão muito mais relevante de discutir se essa acção é ética ou não. Defender que devemos obedecer sempre às leis, mesmo quando consideramos que essas leis não são éticas ou obrigam a viver em condições nas quais falte a ética, é sugerir que as decisões arbitrárias do sistema legal possuem uma autoridade moral superior à das nossas próprias consciências, é exigir que sejamos cúmplices perante uma injustiça. Quando as leis protegem a injustiça, a actividade ilegal não é um defeito e nem a docilidade da obediência à lei é uma virtude.

4. A acção directa é desnecessária uma vez que as pessoas tenham liberdade de expressão
Numa sociedade dominada por um número cada vez maior e mais controlado de comunicação social corporativa, pode ser quase impossível iniciar um debate público sobre determinado assunto se não acontecer algo que obtenha a atenção dessa mesma comunicação social. Sob tais condições a acção directa pode ser um meio de promover a liberdade de expressão, não um meio para a combater. Do mesmo modo, quando as pessoas que normalmente se oporiam a uma injustiça aceitaram essa mesma injustiça como sendo inevitável, não é suficiente falarmos sobre isso: é preciso demonstrar que é possível fazer algo a esse respeito.

5. A acção directa é alienante
Pelo contrário, muitas pessoas que consideram a política partidária tradicional como alienante, inspiram-se e sentem-se motivadas pela acção directa. Pessoas diferentes sentem-se atraídas por acções diferentes; um movimento que se queira de base deve incluir uma variedade abundante de opções. Por vezes pessoas que concordam com os objectivos daqueles que praticam a acção directa mas que são contra a acção directa levada a cabo, gastam imensa energia a discutir uma acção que tenha sido levada a cabo. Quando o fazem, estão a dar um ar de derrota a uma vitória: o melhor seria aproveitarem essa oportunidade para chamarem a atenção para a questão sobre a qual essa acção se focou.

6. As pessoas que praticam a acção directa deviam era recorrer aos canais políticos já existentes
Muitas pessoas que praticam a acção directa também trabalham dentro do sistema. O compromisso de utilizar todos os meios institucionais para resolver um problema não significa que se ignore um compromisso igual de continuar a luta para além das limitações desses meios.

7. A acção directa é exclusiva
Algumas formas de acção directa não estão abertas a todos, mas isto não significa que não tenham valor. Cada um tem preferências e capacidades diferentes, e deve ser livre de agir de acordo com as mesmas. A relevância vai para o modo de como as diferentes estratégias individuais e conjuntas que partilhem os mesmos objectivos a longo prazo podem ser integradas de modo a que se possam complementar umas às outras.

8. A acção directa é cobardia
Esta acusação normalmente é feita por aqueles que têm o privilégio de falarem e de agirem em público sem o receio de repercussões: ou seja, aqueles que têm algum poder nesta sociedade e aqueles que aceitam, obedientemente, o poder instituído. Os heróis da resistência francesa deviam ter demonstrado a sua coragem e número agindo sob a luz do dia contra a ocupação da Alemanha nazi, condenando-se voluntariamente à derrota? Numa nação cada vez mais aterrorizada pela vigilância policial e governamental de praticamente toda a gente, será de admirar que aqueles que manifestam dissidência possam querer proteger a sua privacidade enquanto agem?

9. A acção directa é levada a cabo apenas por estudantes/miúdos ricos privilegiados/pobres desesperados/etc.
Esta alegação é normalmente feita sem fazerem referência a factos concretos, como uma difamação. Na realidade, a acção directa tem sido praticada desde sempre por pessoas oriundas de todos os meios. A única excepção possível seriam os membros das classes mais ricas e poderosas, que não têm qualquer necessidade de praticar qualquer tipo de acção ilegal ou controversa já que, como se fosse coincidência, os canais políticos existentes servem perfeitamente as suas necessidades.

10. A acção directa é obra de agentes provocadores
Esta é outra especulação feita geralmente de modo desligado, sem provas concretas. Alegar que a acção directa é sempre obra de agentes provocadores da polícia é retirar-lhe o poder: ignora a possibilidade de que os próprios activistas possam levar a cabo tais acções, sobrestimando o poder dos serviços de informação policiais e reforçando a ilusão de que o Estado é omnipotente. De igual modo, descarta previamente o valor e a realidade de uma diversidade de tácticas. Quando as pessoas se acham no direito de afirmarem sem quaisquer fundamentos que toda e qualquer táctica que desaprovem é uma provocação da polícia, obstrui-se a possibilidade de decorrer um diálogo construtivo acerca da estratégia mais apropriada a levar a cabo.

11. A acção directa é perigosa e pode ter repercussões negativas para terceiros
A acção directa pode ser perigosa num ambiente policial repressivo, e é importante que aqueles que a praticam se esforcem ao máximo por não ferirem terceiros. Isto não é necessariamente uma condenação da acção directa, pelo contrário, quando se torna perigoso agir fora dos canais políticos convencionais, torna-se ainda mais importante fazê-lo. As autoridades podem utilizar a acção directa como uma desculpa para aterrorizarem inocentes, como Hitler fez quando incendiaram o Reichstag, mas aqueles que detêm o poder é que têm que responder pelas injustiças que cometem, não aqueles que se opõem a eles. Do mesmo modo, apesar das pessoas que praticam a acção directa poderem de facto correr riscos, perante uma injustiça flagrante pode ser mais perigoso e irresponsável não fazer nada.

12. A acção directa é inútil
Todos os movimentos políticos que obtiveram sucesso em toda a História humana, desde a luta pela jornada laboral diária de oito horas até ao sufrágio feminino, recorreram a uma qualquer forma de acção directa. A acção directa pode complementar outras formas de activismo político de modos muito variados. Nem que seja para realçar a necessidade de levar a cabo reformas institucionais e de providenciar aqueles que as apoiam com um maior leque de negociações; mas pode ir além deste papel meramente de apoio e sugerir mesmo a possibilidade de se criar uma organização completamente diferente da vida humana, na qual o poder seja distribuído igualitariamente e todas as pessoas possam ter oportunidade de discutirem directamente tudo aquilo que as afecta.

Crimethink