“Quando chega D. Sebastião?”, perguntava um brincalhão ao telefone, pouco depois do 25 de Abril de 1974. “Daqui fala o próprio”, retorquia, da sede do Partido Popular Monárquico, João Camossa. Nessa época - antes das primeiras eleições -, lia-se nas paredes: “Queremos o Camossa na Assembleia.”

Mas quem era afinal o alfacinha João Carlos Camossa de Saldanha, um dos fundadores do PPM, que morreu esta semana com 81 anos e chegou a ser membro da Assembleia Municipal de Lisboa, entre 1979 e 1985? Baptista-Bastos, numa entrevista que lhe fez no semanário Ponto, em 1982, dizia que era um “monárquico-miguelista [que] tem da História um conceito pessoalíssimo” e definia-o como “advogado não praticante, sagitário, solteiro” - “todas as raparigas mais ou menos da minha idade de quem eu gostei”, revelaria Camossa, ao seu jeito mas noutra conversa, “preferiram casar com outros”.

Margarida Viegas (Tempo, 1979) completava o retrato desse “misto de profeta e de clochard [vagabundo] parisiense”, destacando o seu “casacão informe [que usava] em pleno Verão”, de onde saía papelada e desapareciam botões, e a “barba que, se fosse cuidada, não envergonharia Vasco da Gama” - outras descrições falam das suas “barbas bíblicas”.

Em 1986, “à conversa e à bebida com o repórter” Eduardo Guerra Carneiro, recusava falar ao Diário Popular na cervejaria Trindade, alegando: “Que diriam os meus inimigos se me vissem retratado com um fundo de alegorias maçónicas?”

Envolvido na formação, nos anos 50, do anti-salazarista Movimento Monárquico Popular (com a Liga Popular Monárquica e a Renovação Portuguesa daria origem à Convergência Monárquica, que passou a chamar-se PPM após o 25 de Abril), o anarco-comunalista João Camossa representava a corrente libertária do partido, para quem o rei deveria ser o último vestígio do Estado.

Candidato oposicionista nos tempos de Salazar e Caetano, trocou o lugar destinado aos advogados pelo banco dos réus quando a PIDE “concluiu” que ele seria cúmplice dos seus clientes do golpe de Beja de 1961. Revelou que se iria apresentar no tribunal apenas envolvido na toga e, se o mandassem tirar o trajo, ficaria nu. O juiz fascista, sabendo de tudo, evitou o escândalo.

Apreciador de autores medievais, Camões e Bocage, Camilo e Nemésio, para garantir o apego à liberdade tinha de vender livros da vasta biblioteca que herdara do pai. As rendas anuais das propriedades da família na região de Aveiro não lhe davam para viver um mês, pouco advogava e não eram bem pagos os artigos de jornal. De que vive? “Fundamentalmente, como todos os homens, da graça de Deus.” Ou: “Vivo das coisas que vão acontecendo.”

E, se lhe cortassem a electricidade, explicava: “Teimam em vir cobrá-la exactamente às horas em que eu não estou. E a minha cadela não conta, entre as suas inúmeras qualidades, a de saber atender esses senhores.” Continuou a viver às escuras.

Fernando Madaíl